
Composição de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Guilherme Sá, Rodrigo Bandolim e Orlando Ambrósio une ancestralidade, religiosidade afro-brasileira e força feminina em um samba aclamado pela comunidade durante a disputa pelo hino oficial do Carnaval 2027
Já era manhã de domingo quando a Estação Primeira de Mangueira escolheu o samba-enredo que será o hino oficial da escola no Carnaval 2027. A parceria formada por Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Guilherme Sá, Rodrigo Bandolim e Orlando Ambrósio conquistou a comunidade, os segmentos e a diretoria da verde e rosa, consagrando-se campeã da disputa.
Defendido pelos intérpretes Tinga, Grazzi Brasil e Daniela Mercury , o samba apresenta como um de seus principais eixos a força de Oyá e a identidade da mulher negra. A composição percorre temas como ancestralidade, religiosidade de matriz africana, intolerância religiosa e resistência feminina.
Uma noite de festa, samba e disputa acirrada
A escolha do samba aconteceu depois de uma grande festa na quadra da Mangueira, preparada para receber a comunidade e as torcidas das parcerias finalistas.
A programação teve início com uma apresentação concebida e dirigida artisticamente por Fábio Batista, especialista em dança das religiões de matriz africana. A performance estabeleceu um diálogo entre dança, ancestralidade e a força dos orixás, reunindo o time de show da Mangueira e bailarinos selecionados durante um workshop de dança afro. Em cena, corpos, movimentos e musicalidade se encontraram em uma apresentação construída para provocar emoção e valorizar a potência da cultura afro-brasileira, em sintonia com a identidade da verde e rosa.
Em seguida, a bateria assumiu o protagonismo e proporcionou um espetáculo à parte. Sob o comando dos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto, o ritmo conduziu passistas, baianas, casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e os demais segmentos da escola. Ao revisitar sambas antológicos que fazem parte da trajetória da Mangueira, a apresentação transformou a quadra em uma celebração da memória, da tradição e da identidade de uma das mais emblemáticas escolas de samba do país.
Na sequência, foi a vez das parcerias finalistas defenderem suas obras. As apresentações levaram as torcidas a transformar a quadra em uma grande arena de samba, com bandeiras, cantos e muita vibração, deixando a disputa ainda mais acirrada.
Antes do anúncio do resultado, os integrantes do carro de som da escola assumiram o palco e mantiveram o público cantando e sambando, ajudando a conter a ansiedade pela definição do samba vencedor.
Quando finalmente veio o anúncio, a presidenta Guanayra Firmino fez um breve discurso agradecendo aos Mangueirenses e encerrou dizendo: “É que eu sou preta, macumbeira e de Oyá”. Na sequência o intérprete Dowglas Diniz entoou o samba campeão, a comemoração avassaladora tomou conta da quadra.
Confira a letra do samba: Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Guilherme Sá, Rodrigo Bandolim e Orlando Ambrósio
QUANDO TOCA O ADARÓ SOMOS TANTAS NUMA SÓ, A NAÇÃO EVOCA MINHA MÃE IANSÃ! VIRA TEMPO, TEMPESTADE PRA VARRER TODA MALDADE, SOB OS RAIOS DA MANHÃ.
AH! EPARREY MEU POVO É TROVOADA, O TAMBOR DO RECOMEÇO, QUANDO VIRA A ENCRUZILHADA…SOU REBELDIA DE OLUAFEFÉ, PELE DE BÚFALO NO CORPO DE MULHER!
AFULELÉ ADÊ Ô, DEIXA INCORPORAR OLONIFÉ DE OGUM, FORJA PRA LUTAR PAIXÃO QUE ATIÇA, FOGO DE AKARÁ! NO CORAÇÃO DE XANGÔ DEIXA ELA GIRAR!
IYÁ MESAN ORUN… TREME-TERRA…DESCE O MORRO, SOBE O RUM… É GUERRA! BATE O OGUÊ, QUE O SANGUE TEM DENDÊ, TÁ PRA NASCER QUEM MANDA NELA!
ELA DANÇA NO ILÊ AXÉ, DÁ CAMINHO NO AXEXÊ, FAZ DO SEU FURACÃO, BALÉ, DONA DO AJERÊ MEU ORÍ, TUA CORAGEM, LIBERDADE OBIRÍN PORQUE NÃO EXISTE MACHO QUE LEVANTE A MÃO PRA MIM!
É QUE EU SOU PRETA MACUMBEIRA E DE OYÁ SOU VENTANIA QUE NINGUÉM PODE AFRONTAR COLO DE KETU, SOLO DO GUETO, FORÇA DE ORIXÁ. QUEM TEM FÉ NA QUARTA-FEIRA SABE QUE EU NÃO ANDO SÓ.
O BRASIL DA INTOLERÂNCIA EU DESPACHO NO EBÓ NADA FICA NO CAMINHO, A RAINHA VAI PASSAR, SEGURA QUE O XIRÊ VAI COMEÇAR!
OYÁ TETÊ OYÁ TETÊ OYÁ. OYÁ TETÊ OYÁ MANGUEIRA YABÁ! Ê MAMÃE, TRAZ DE NOVO TEU AXÉ…RELAMPEJOU PRA VITÓRIA.. MOTUMBA LÈ!
Carnavalesco Sidnei França comemora a escolha
“Esse foi um concurso em que, desde o início, percebemos a dedicação e a aderência dos compositores à proposta de dialogar com a comunidade. Esse samba, assim como outras quatro obras, conseguiu decodificar a sinopse e traduzi-la em uma musicalidade muito próxima daquilo que o povo entende e reconhece como Oyá. Vejo, portanto, que a Mangueira foi muito bem-sucedida, e esse concurso é uma prova disso, ao levar para a comunidade a força, a intensidade e a importância de Oyá para um pensamento preto e suburbano. A Mangueira, mais do que nunca, exalta a brasilidade por meio da sua maior força: a negritude, o pertencimento e a representação do povo do morro. É muito bonito ver toda a comunidade cantando ‘É que eu sou preta, macumbeira e de Oyá’. Isso é muito forte. Tenho muito orgulho de fazer parte da Mangueira.”
O enredo “Oyá por nós!” será desenvolvido pelo carnavalesco Sidney França, que assina o Carnaval da Estação Primeira de Mangueira pelo terceiro ano consecutivo. A verde e rosa encerra a temporada de desfiles no dia 9 de fevereiro de 2027, levando para a Avenida uma narrativa marcada pela força de Oyá, pela ancestralidade e pela potência da cultura afro-brasileira.

